16 de março de 2018
O caso de Marielle e a indignação errada
Aos que dizem a frase "Bandido bom é bandido morto", eu sempre indico o filme O Contador de histórias (2009), um dos filmes mais reflexivos que eu já assisti na minha vida. Pode não ser uma super produção hollywoodiana, mas nos ajuda muito a ver o quanto a sociedade vitimiza e, sim, condiciona o ser humano a seguir os caminhos pelos quais eles não têm opções. Indico também o livro A morte e os seis mosquiteiros (Jaguatirica, 2015), que também nos mostra a mesma realidade. Esse eu recebi de uma editora na época que escrevia resenhas em um blog e foi um dos melhores livros nacionais que já li (aliás, quem se interessar, eu separei para doar).
Não sei o quanto custa para o ser humano entender que cada pessoa é fruto do meio. Basta sentar e pensar: "Que vida eu teria se eu tivesse nascido em um ambiente diferente?". Eu, por exemplo, tive muita sorte de ter conhecido alguma das pessoas que conheci; de ter passado um ano estudando um curso que não viria a ser a minha profissão no futuro, mas que me proporcionou muito aprendizado sobre a humanidade, filosofia, sociologia, psicologia, educação; de ter conhecido os professores que passaram pela minha vida; de ter me apaixonado pelos livros e eles terem me respondido as perguntas que eu não podia fazer em casa quando criança. Foi o meio em que eu vivi, os produtos que eu consumi e as pessoas que eu conheci que me moldaram a ser o que eu sou hoje e isso acontece com cada ser humano. Também acontece com cada coisa na natureza. Na genética, nós dizemos que o fenótipo é a soma do genótipo com o ambiente. Na sociedade, acho que poderíamos trocar o fenótipo pelo ser humano, o genótipo pelas pessoas que exercem determinada influência sobre ele e o ambiente... Bem, o ambiente é o ambiente.
Aonde eu quero chegar com isso? Desde que aconteceu o assassinato da vereadora Marielle, tenho visto muitas postagens na timeline do meu facebook ironizando o fato de ela ter morrido por defender bandido. Não quero especular sobre a morte dela; na verdade, até agora, tenho estado bastante inquieta falando comigo mesma: "Eu não vou falar sobre isso, eu não vou falar sobre isso, eu não vou falar sobre isso...". Ok. Eu vou falar sobre isso.
Eu nunca conheci ninguém que defendesse bandido. A verdade, é que as pessoas defendem o que elas acreditam. Na ultima entrevista que assisti da Malala, uma das personalidades que eu mais admiro, ela diz que perdoa as pessoas que atentaram contra a vida dela, porque eram pessoas que estavam fazendo o que achavam que era certo. Isso não quer dizer que ela acredite que eles estavam fazendo o certo; apenas que entender que eles foram condicionados a acreditar que estavam fazendo o certo. Eram pessoas ignorantes, que se deixaram moldar pelo errado. Cabe as pessoas menos ignorantes, alertarem aqueles que estão sendo moldados para o mal e não apontarem os dedos na sua cara e os marginalizarem ainda mais. É sério, assistam o filme que eu falei.
Não se trata de defender bandidos, apenas de olhar além de seu próprio umbigo.
Marielle não defendia bandidos, pelo contrário, e existe uma grande probabilidade de ela ter sido assassinada por aqueles que são vistos como "heróis" por muitos; eu disse que não iria especular.
O que realmente importa sobre tudo isso, não é o fato de Marielle defender ou não "bandidos" e sim que mais uma vez, no nosso país (e no mundo), em pleno 2018, uma mulher foi morta por erguer a voz. E em vez de as pessoas estarem indignadas com isso, estão preocupadas em dizer que ela defendia bandidos e que bandido bom é bandido morto.

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