20 de outubro de 2015

Elis Regina: Nada será como antes.


"- O que foi, Elis? Sinto que você não está bem.
- Quero voltar pra Porto Alegre! Não aguento mais isso!
- Não diga isso, Elis. Afinal, você quer ou não quer ser a maior cantora do Brasil?
- Eu não quero, Renato! Eu já sou a maior cantora do Brasil!"

Há tempos ando pelas livrarias e me deparo com Elis Regina me olhando, de ponta cabeça, sorridente, em cima de uma bola dessas usada em academias, abaixo de um titulo chamativo: “Nada será como antes”. O quê não será como antes? Resolvi levar pra casa para descobrir.

A mais recente biografia de Elis Regina editada pela Master Books e escrita por Júlio Maria me tomou logo no primeiro capitulo. A primeira impressão que tive foi a mental: “Depois de muitos nos esbarrar, finalmente estou te levando pra casa”; a segunda foi física: “Tem mais páginas do que eu imaginava” e a terceira foi impactante assim que eu abri e comecei a ler: “Caramba”.

Conheci a música de Elis ainda menina através de um daqueles livrinhos de letras de musicas que veem dentro dos cds. Tinha um de um cd de Elis deixado em algum lugar da minha casa e li ali a letra de "Fascinação". Não sabia quem cantava aquela musica, mas ao ler aqueles versos já me veio a cabeça o ritmo da musica. Claro que conhecia, de algum lugar que eu não sei de onde... Da rádio, da TV, do mesmo cd... Sei lá. Algumas musicas fazem parte de nossas vidas mesmo que a gente não perceba e as absorvemos inatamente, elas estão ali desde que nascemos, não dá pra saber qual foi o primeiro contato. O que importa é que a primeira vez que me encantei com uma musica, a musica era "Fascinação" e quem a cantava era Elis Regina. A segunda vez que me encantei com outra musica, a musica era "Brincadeira de Roda" e quem a cantava era Elis Regina. De novo. Foi então que a cantora entrou na minha vida com suas musicas.

Foi a internet e sua facilidade de pesquisa que me aproximou de Elis ou qualquer artista a quem admiro. Naveguei no repertorio de Elis, mas nunca em sua vida. Na verdade, eu era uma inconformada com sua morte. Como pode, uma voz que me parece tão viva, não está mais viva? Tamanha é a vitalidade da musica e da voz de Elis, que quando criança, eu tinha medo de ouvir suas musicas... Não sei explicar por quê.

Quando terminei o primeiro capitulo da biografia, fechei o livro, respirei fundo e cheguei a conclusão: “Eu quero conhecer essa mulher”.


Júlio Maria começa a narrar a historia de Elis Regina pelo fim, pelo momento em que Elis liga para seu namorado com um quase pedido de socorro. A morte da cantora é narrada superficialmente dando ênfase em como o acontecimento bateu nas pessoas próximas a ela: namorado, amigos, ex-maridos, família e filhos... Deixando um ar de dó no ar, Júlio começa o segundo capitulo e segue os seguintes contando do nascimento de Elis até o reencontro com o começo da narrativa, a morte.

O livro é narrado em uma linguagem fácil e envolvente, fazendo com que a leitura de uma biografia dê ao leitor o prazer de quem tá lendo o romance no qual o personagem principal é uma cantora que desde seu nascimento tem em si um protagonismo natural, uma intensidade que faz dela uma pessoa forte e admirável. A escrita me fez vibrar como se estivesse em uma plateia em que não pude está por causa do pouco tempo de vida. Me arrepiei inteira quando foi anunciado, no livro, “Arrastão” como vencedora do Festival da Musica Popular Brasileira; senti como se assistisse O Fino da Bossa e aprendi a compreender Elis como nunca compreendi enquanto não a conhecia, assim, mais profundamente.

Agora, me lembro de uma entrevista do Júlio Maria ao R7, em que a jornalista mostra o livro dela marcado onde ela estava lendo, aproximadamente na metade, e ela diz que naquele ponto ela sentia raiva da Elis. Então o Júlio diz que o filho de Elis, quando comentou com ele sobre o livro, diz que em certos pontos também odiou a mãe. Quem sabe no mesmo ponto que a jornalista. Li o livro inteiro a espera desse ponto em que odiaria Elis, mas em mim as impressões foram totalmente contrárias. 

Antes de ler a biografia, eu tinha uma certa raiva de Elis pelo simples fato de ela ter morrido. Mais! Por ela ter morrido, da forma que morreu, deixando três filhos ainda crianças. No entanto, o livro me mostrou uma Elis que eu não conhecia, uma mulher gigante em personalidade, que morreu vitima da inexperiência. Uma Elis que teve que lidar com lobos, ainda muito jovem. Como ela mesma disse, certa vez, em entrevista, sua mãe não lhe preparou pra vida. Vai ver nem deu tempo, Elis já era gigante e o poder da sua voz não coube em Porto Alegre, no Brasil... Talvez só não tinha tomado o mundo por que ela não quis.


Não sabia muito bem o que escrever na resenha dessa biografia, resolvi então apenas escrever o que senti após finalizar a leitura, já que sobre a carreira de Elis Regina qualquer um pode ler no Wikipédia. Coloco “Elis Regina: Nada será como antes” como a biografia mais bem escrita que já li até o momento. Talvez seja mérito da biografada... Elis é uma daquelas pessoas que têm a vida tão legal, tão intensa, que você olha e diz: “Daria um livro, daria um romance, daria uma novela, um filme”. Poucas pessoas têm esse protagonismo.

2 comentários:

  1. Uau, que texto lindo e maravilhosos!
    Eu li uma biografia/fatos reais que também me transportou literalmente para dentro do livro e só tive coragem de largar quando terminei.
    Fiquei super interessada.
    Abraços! | Blog Saphy | Facebook

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  2. Sinceramente eu não curto muito biografia! Mas quem que não se encanta com o livro né?
    Eu sempre quando adquiro meus livros, vou muuuito pela cala e olha que sempre quando leio, acabo me apaixonando pelo livro! Muitas vezes vou pela dica dos outros e também gosto, mesmo a capa não me agradando... E nós como leitores não gostamos que peçam nossos livros emprestado.

    Sua resenha está ótima! Parabéns.
    Atenciosamente Um baixinho nos Livros.

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